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Foram propostos recentemente para discussão
novos programas de Matemática (A e B) destinados ao 11º
ano, bem como o programa de Matemática Aplicada às
Ciências Sociais. Conforme já o fez em ocasiões
anteriores, a Secção de Educação e Matemática
da Sociedade Portuguesa de Ciências da Educação
congratula-se com a disponibilidade para o debate de ideias manifestada
pelos autores dos programas e deseja, através do presente
parecer, contribuir para ele.
Para não dispersar os nossos esforços,
decidimos concentrar-nos numa apreciação do programa
de Matemática A e no de Matemática Aplicada às
Ciências Sociais.
Programa de Matemática A
Embora apenas tenha sido colocada para discussão
o programa do 11º ano, pareceu-nos que a sua discussão
seria mais frutuosa se considerada em conjunto com as propostas
relativas ao 10º ano, dando atenção especial
à introdução que enquadra todo o currículo
de Matemática A do Ensino Secundário. Esta introdução
foi consideravelmente expandida quer quando comparada com os currículos
em vigor, quer quando confrontada com as primeiras propostas destinadas
ao 10º ano e que foram objecto de um parecer anterior.
Desejamos, antes de mais, manifestar a nossa concordância
com a preocupação manifestada pelos autores no desenvolvimento
de um programa moderno, adaptado às exigências do mundo
actual, e que procura incorporar muitas das ideias que atravessam
as preocupações de educadores matemáticos noutros
países. A valorização de uma abordagem centrada
no aluno, em detrimento de uma ênfase na linguagem, a procura
de metodologias diversificadas para estudar temas matemáticos,
recusando a visão de uma matemática monolítica
assente na lógica, bem como uma incorporação
da tecnologia que a encara como uma oportunidade para melhorar a
qualidade das aprendizagens, e não como uma ameaça
aos saberes matemáticos, são características
deste programa, como já o eram do anterior, e merecem todo
o nosso apoio.
Existem, no entanto, alguns pontos a necessitar de
uma reformulação e que passaremos a indicar a seguir.
Sobre as Finalidades do Programa
A secção 2.1 sobre as finalidades do
programa deverá conter objectivos gerais que explicitem os
modos como a disciplina de Matemática pode contribuir para
finalidades mais globais indicadas para o conjunto do ciclo escolar
e que clarifiquem o contributo essencial da Matemática para
a formação dos jovens deste nível etário
que optaram por estes Cursos Gerais. Discordamos, pois, da inclusão
de finalidades que, embora meritórias em si, não exprimem
uma relação com a disciplina, situação
que abrange as duas últimas.
Pensamos ainda que se deve efectuar um esforço
de condensação e que poderia, por exemplo, passar
pela definição de duas grandes áreas.
A primeira centrada na ideia "Pensar matematicamente",
englobaria a primeira e a segunda finalidade com pequenas alterações
de redacção (a carregado estão as alterações
que propomos):
1 - Desenvolver a capacidade de usar a Matemática
como instrumento de representação, interpretação
e intervenção no real;
2 - Desenvolver a capacidade de raciocinar matematicamente,
nomeadamente através da formulação e resolução
de problemas, da comunicação, da elaboração
e teste de conjecturas, e da realização de raciocínios
dedutivos.
A segunda área estabeleceria relações
entre a matemática e a cultura científica e a sociedade,
e nela seriam englobadas a terceira, a quarta e a sexta finalidades,
embora com alterações:
3 - Promover o aprofundamento da cultura científica,
técnica e humanística (a referência à
importância dos estudos posteriores já é feita
no decreto lei que institucionaliza os novo quadro curricular, Artº
3º, 1).
4 - Contribuir para uma atitude positiva mas crítica
face à ciência e particularmente para com a Matemática
(semelhante ao que está no programa C).
6 - Apoiar o desenvolvimento de uma consciência
crítica e interventiva em áreas como ... (completar).
A quinta finalidade deve ser eliminada.
Sobre os Temas Transversais
Embora existisse uma referência a estes temas
na proposta de programa apresentada no ano passado, os autores alargaram
consideravelmente a sua descrição. Embora reconheçamos
um esforço de elaboração notável, queremos
exprimir algumas reservas em relação a este assunto.
Uma primeira objecção prende-se com
as características destes temas. Pensamos que eles têm
uma natureza muito distinta, dificilmente enquadrável sob
uma mesma denominação. Uns prendem-se com procedimentos
didácticos, outros com a qualidade das aprendizagens, e outros
dificilmente se distinguem de conteúdos programáticos.
Embora seja positivo não reduzir o programa ao estudo de
temas matemáticos, esta pluralidade de temas transversais
dificulta a sua apropriação pelos professores.
Uma segunda objecção centra-se na ausência
de articulação entre os temas, os conteúdos
programáticos e as sugestões metodológicas.
Por exemplo, as três páginas da introdução
da secção 2.4 avançam com propostas que nalguns
casos se sobrepõem aos temas, embora noutros se dirijam para
outras direcções. Como deve o professor gerir esta
contradição? Possui então o programa uma terceira
dimensão, que é, ainda por cima, parcialmente independente
das outras duas?
Uma terceira objecção relaciona-se
com a escassez de exemplos de utilização dos temas
transversais interligados com os próprios conteúdos
programáticos e ficou-nos ainda a sensação
de que a interligação temas transversais/conteúdos,
se vai esbatendo ao longo do texto.
Embora a ideia de desenhar um currículo que
permita leituras não lineares, recorrendo, por exemplo, ao
cruzamento de duas dimensões, nos pareça interessante,
as ambiguidades contidas no texto vertente, agravadas pela inexistência
de casos exemplares, comprometem a sua aplicação efectiva
por parte dos professores. Os programas em vigor no 2º e no
3º ciclos contêm igualmente referências a "temas
transversais", que, na ausência de uma articulação
efectiva com os tópicos programáticos, e em conflito
com práticas lectivas dominantes, são esquecidos.
Assim, propomos que a referência a temas transversais
seja simplificada (não mais de três ou quatro), dando
ênfase apenas aos relacionados com processos matemáticos
a desenvolver pelos alunos. Propomos ainda que se enriqueça
e clarifique a relação entre os temas, os conteúdos
programáticos e as sugestões metodológicas.
Sobre um estilo ocasionalmente prescritivo
Na nossa tradição educativa, os programas
escolares têm por função, entre outras, a de
informar os diversos intervenientes no acto educativo (professores,
autores de manuais, pais, etc.) sobre os conteúdos que obrigatoriamente
deverão ser leccionados. Não existe, no entanto, nem
uma única via para um ensino bem sucedido, nem um método
de ensino que se revele eficaz para todos os alunos. Daqui resulta
que, mesmo num sistema educativo de tradição centralizadora
como o nosso, deve existir (e tem existido de facto) alguma margem
de manobra de modo a que cada professor possa adaptar as suas metodologias
quer às características diversificadas dos seus alunos,
quer ao modo como ele se apropria especificamente do programa.
No entanto, o programa em análise envereda
pontualmente por um estilo demasiadamente prescritivo. Estamo-nos
a referir em especial à p. 18, onde existem diversas frases
que visam condicionar em excesso as escolhas didáticas: "as
opções metodológicas ... têm que ser
seguidas", "as indicações metodológicas
... não são simples indicações"
(afinal são ou não indicações?), "embora
isso não constitua uma instrução (sic) rígida
... ela deve ser uma referência obrigatória ... e deve
limitar ..." (não é rígida, mas é
obrigatória e limita!). Sugerimos neste caso uma reescrita
destes parágrafos.
A implementação do programa
Conforme já foi apontado por nós em
intervenções na Comissão de Acompanhamento,
o esforço conducente a uma implementação adequada
do programa deverá estar centrado no desenvolvimento e divulgação
de exemplos didácticos de qualidade ao nível da sala
de aula e da avaliação. O papel desempenhado por projectos
desenvolvidos pelas escolas pode aqui ser fundamental para incorporar
os programas na cultura profissional dos professores de Matemática.
Programa de Matemática Aplicada às
Ciências Sociais
Não temos em Portugal uma tradição
de programas de Matemática diversificados. O desenvolvimento
de programas deste tipo (bem como a sua crítica) é
portanto uma tarefa difícil. Limitaremos pois o nosso parecer
a alguns aspectos de caracter geral.
Sobre as Finalidades do Programa
As Finalidades propostas para este programa são
praticamente as mesmas que as propostas para o Programa A. Tal como
já argumentámos anteriormente a propósito deste
último, pensamos que as finalidades se devem articular com
as finalidades gerais do Ciclo, bem como explicitar o contributo
essencial da Matemática para a formação dos
jovens que optaram por estes Cursos Gerais. Embora possam pois ter
alguns pontos comuns com as da Matemática A, estas finalidades
deverão conter algo de específico, pois só
assim é possível compreender porque este programa
é diferente do da Matemática A. Se as finalidades
fossem iguais, significaria isso que elas poderiam ser atingidas
com um programa mais simples, e para que serviria então o
Programa A?
As duas diferenças entre as finalidades propostas
reside na troca da terceira do Programa A pela quarta deste Programa,
isto é, enquanto que os alunos do primeiro devem aprofundar
a cultura científica, os do segundo devem ver melhorada a
sua iliteracia. Pensamos que é pouco, e que se pode encontrar
uma formulação mais estimulante para o segundo programa.
(De caminho pode ainda ser melhorada a formulação
à La Palisse "diminuir a inumeracia ... aumentar a literacia".)
Sobre os conteúdos
Em geral, os conteúdos parecem-nos adequados.
A inclusão da Teoria da Decisão deveria, no entanto,
ser mais bem justificada. Trata-se de um tema desconhecido, cujas
fontes de aprofundamento são materiais em inglês, e
que deveria merecer um desenvolvimento mais substancial. Não
seria de optar antes pelo estudo da Teoria de Jogos, melhor conhecida?
Sobre o apoio aos professores
Antevemos a necessidade de um apoio forte aos professores
que vão iniciar a leccionação deste programa.
Nesse sentido, pensamos que as sugestões metodológicas
deverão ser expandidas, seguindo, por exemplo, o que foi
feito nos programas anteriores, que continham um desenvolvimento
que ajudou a clarificar as intenções dos autores.
Será igualmente necessário que da parte
das estruturas oficiais, exista uma disponibilidade para um apoio
profundo, sob pena de este programa ser desvalorizado.
2/2/2001
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