| Dividiremos este parecer em cinco áreas.
1. Questões prévias
Registamos positivamente, e em primeiro lugar, a
vontade manifestada pelos autores dos programas de pôr à
discussão as alterações curriculares. Trata-se
de um corte, que vemos com agrado, com um passado autoritário
(e autista). No entanto, a urgência da emissão de uma
opinião, bem como o desconhecimento das intenções
dos autores em relação ao 11º e ao 12º anos,
limitam fortemente as possibilidades de uma discussão mais
aprofundada.
2. Sobre o módulo
de orientação
Discordamos da introdução do módulo
de orientação no início do 10º ano. Aparentemente,
pretende-se dar "uma hipótese de correcção
de percursos formativos". No entanto, a solução
encontrada é muito pior do que a situação actual.
Criticamos a forma, o conteúdo e a viabilidade desta proposta.
2.1. Quanto à forma, pensamos que se começa
o ano da pior maneira. Iniciar o novo ciclo com um módulo
que vai ter consequências determinantes no prosseguimento
dos estudos, é extremamente desmotivador quer para os alunos,
quer para os professores.
2.2. Quanto ao conteúdo, não compreendemos
a razão da escolha da geometria. A geometria não possui
virtualidades preditivas do desempenho em Matemática. Nenhuma
investigação mostra (ou sugere sequer) que os alunos
com dificuldades em geometria não devem prosseguir estudos
envolvendo a Matemática. Esta nossa objecção
é, no entanto, mais geral, e pensamos que nenhum tópico
da Matemática tem por si só essas virtualidades preditivas.
2.3. Quanto à viabilidade, pensamos, por um
lado, ser impossível formar uma opinião sobre a adequação
dos alunos a qualquer disciplina em 9 aulas. E o que vai acontecer
aos desadaptados? Mudam de curso? Ao fim de nove aulas? E se são
desadaptados a várias disciplinas? Qual a entidade que se
responsabiliza por negar a continuação dos alunos
nos cursos escolhidos?
Introduzir ou reforçar mecanismos de aconselhamento
dos alunos no final do 9º ano, ou no momento da sua inscrição
no 10º, dando-lhes um carácter obrigatório, parece-nos
uma opção bem mais frutífera do que a proposta
actual.
3. Sobre a Matemática
B
Manifestamos muitas reservas em relação
aos conteúdos programáticos de Matemática B,
onde pensamos que se está a repetir os erros cometidos com
o programa de Métodos Quantitativos e a acrescentar outros.
3.1. Discordamos do processo de construção
do programa de Matemática B. Este parece ter sido obtido
a partir do da Matemática A, suprimindo diversos tópicos
(não conseguimos discernir um critério para os cortes).
No entanto, pensamos que esta não é a forma adequada
de elaborar um currículo, pois este processo acaba por ignorar
os interesses dos destinatários. A Matemática B deveria
ser construída, positivamente, a partir das necessidades
dos alunos e não, negativamente, através de cortes.
Pensamos que uma preocupação excessiva com a permeabilidade
entre os cursos conduziu a um programa desajustado.
3.2. Discordamos ainda do conteúdo. As necessidades
dos cursos a que se destina a Matemática B são muito
diversificadas e não vemos razão para a uniformidade
deste programa. Determinados cursos privilegiarão certos
tópicos em detrimento de outros, menos significantes para
a formação dos alunos.
Pensamos que será de reescrever o programa
de Matemática B, atendendo essencialmente à sua adequação
aos cursos onde se integra. Propomos, por exemplo, que ele seja
composto por diversos módulos e que, para cada curso, sejam
seleccionados alguns deles.
4. Sobre a abordagem do Tema
III ao longo do ano
A proposta de abordagem do Tema III ao longo do ano
integrado no Projecto parece-nos bizarra.
4.1. Por um lado, questionamos se é viável
integrar a totalidade de um tópico matemático no Projecto.
Embora muitos conteúdos que tradicionalmente são leccionados
de forma expositiva possam ser ensinados com vantagem envolvendo
os alunos em trabalhos de projecto, outros não o podem a
não ser de modo muito forçado. Mesmo no tema Estatística,
existem áreas que devem ser ensinadas formalmente (embora
não necessariamente de forma expositiva).
4.2. Por outro lado, esta opção levanta
inúmeras dificuldades práticas. O que acontece se
a Área de Projecto não envolve matemática?
E como se vai processar a integração das Sucessões
e da Trigonometria e Complexos nos Projectos? Como se garante o
estudo de todos os conceitos fundamentais destes temas?
Recomendamos, pois, que esta ideia seja abandonada.
5. Alterações
aos actuais programas
Pensamos que se deveria aproveitar esta alteração
curricular para mudar alguns aspectos dos programas actuais que
transitaram para a Matemática A. Estamos a pensar, por exemplo,
que quer as aplicações da Matemática, quer
a resolução de problemas e o trabalho investigativo,
aparecem apenas nas sugestões metodológicas, mas não
nos conteúdos. Em currículos de outros países,
estes temas são encarados com mais força e são
assumidos como temas de pleno direito nos currículos de Matemática.
11/3/2000
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