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Neste parecer destacaremos três problemáticas.
Em primeiro lugar, os aspectos de enquadramento geral que se prendem
com a relação estabelecida entre este documento e
outros actores com influência curricular. Em segundo lugar,
discutiremos o documento na generalidade, terminando em terceiro
por abordar algumas temáticas curriculares específicas.
1. Aspectos de enquadramento geral
1.1 Esta acção é positiva
Pensamos ser positiva a intenção levada
a cabo pelo DEB de promover uma reflexão sobre os currículos,
estabelecendo relações entre os três ciclos
do ensino básico, que raramente têm sido explicitadas.
A preocupação em dialogar sobre estes temas com outros
actores educativos (professores, escolas, investigadores, etc.)
é igualmente meritória e só pode conduzir a
um enriquecimento dos documentos finais.
1.2 Preocupação com factores de
dispersão
Gostaríamos, no entanto, de manifestar alguma
preocupação pelas consequências inerentes ao
aparecimento de mais um documento sobre o programa. Temos em Portugal
uma tradição de currículos únicos definidos
centralmente e a existência de diversos documentos contendo
orientações curriculares pode constituir um elemento
de desorientação nas escolas. Põe-se, nomeadamente,
o problema de como resolver eventuais discrepâncias entre
estes documentos e os programas em vigor. Por exemplo, que fazer
quando as brochuras não referem um tema que os programas
contêm? Esse tema deixou de fazer parte do programa? Embora
suponhamos que não é essa a intenção
do DEB, existe a possibilidade de confusão.
Supomos que o DEB tem uma visão integrada
das diversas brochuras em preparação. No entanto,
considerando, por exemplo, as diferenças de estilo entre
os documentos consagrados ao Português e à Matemática,
não é para nós claro que essa visão
venha a ser partilhada pelos autores de cada uma das brochuras.
Esta dificuldade de integração pode existir também
em relação aos professores nas escolas. Pensamos em
particular nos professores do 1º ciclo, que vão ser
confrontados com uma multiplicidade de documentos, todos eles pretendendo
ter consequências para a sua actividade lectiva e contendo
visões pedagógicas, eventualmente, distintas.
Recomendamos pois que o DEB entenda o lançamento
destas brochuras como um passo transitório para uma revisão
curricular mais abrangente.
1.3 Sugestões para aprofundar e concretizar
os documentos
Compreendemos que as brochuras devem ser sintéticas
e redigidas numa linguagem directa. Embora elas sejam condensações
de reflexões mais aprofundadas (expressas em livros publicados
pelo DEB), os destinatários dificilmente vão ter acesso
a essas visões. Nos Estados Unidos o lançamento de
reflexões curriculares (as Normas), esteve associado à
apresentação de múltiplos exemplos práticos.
Igualmente a implementação da recente reforma dos
programas de Matemática no ensino secundário beneficiou
dos contributos apresentados por uma colecção de pequenos
livros que desenvolveram e concretizaram muitas ideias expressas
nos programas.
Recomendamos pois que o DEB estude a viabilidade
de lançar pequenos livros de apoio às brochuras.
2. Comentários gerais sobre a brochura
de Matemática
Consideramos em geral que a brochura de Matemática
é informativa e está escrita de uma forma clara e
adequada ao fim pretendido. Pensamos, no entanto, que alguns aspectos
devem ser alterados.
2.1 Valorização dos aspectos gerais
de cada tópico matemático
A disposição gráfica escolhida
para distinguir entre as competências referidas para todos
os ciclos e as referidas para cada ciclo é infeliz, por valorizar
as segundas, fazendo esquecer as primeiras. Na redacção
deste parecer fomos constantemente confrontados com este problema
e recomendamos vivamente a alteração deste aspecto
gráfico.
2.2 Inclusão de recomendações
para todos os ciclos
O facto de não serem referidas competências
específicas para todos os ciclos no tópico "Estatística
e Probabilidades" e no tópico "Álgebra e
Funções", pode conduzir à ideia de que
estes tópicos não devem ser abordados nos ciclos omissos,
apesar de se referirem competências válidas para todos
os ciclos nestes tópicos. Pensamos que esta situação
deve ser alterada e mais à frente propomos algumas soluções.
2.3 Favorecendo uma visão integrada das
brochuras
Pensamos ser intenção do DEB que a
brochura dedicada à Matemática seja considerada, quer
em relação com as brochuras das outras disciplinas,
quer com a brochura "Competências Gerais e Transversais".
Sugerimos, nesse sentido, que existam referências cruzadas
nas diversas brochuras, como modo de suscitar no leitor a necessidade
de aceder às outras brochuras.
2.4 Referência ao ensino pré-primário
Compreendemos o critério que levou a que o
DEB não tenha incluído referências ao ensino
pré-primário. No entanto este está cada vez
mais generalizado e pode integrar o ensino básico a curto
prazo. Pensamos ser viável a inclusão de algumas recomendações
específicas para esta faixa etário, embora salvaguardando
a sua não-obrigatoriedade.
3. Recomendações sobre temáticas
curriculares específicas
3.1 Números e Cálculo
As competências essenciais indicadas no domínio
dos Números e Cálculo, ao longo de todos os ciclos
e nos diversos ciclos, encontram-se, na generalidade, em concordância
com os actuais programas. No entanto, tendo em conta a sua centralidade
para o exercício da cidadania, bem como a relação
deste tópico com a tecnologia, sugere-se que:
As percentagens fiquem explicitamente colocadas ao
nível das competências essenciais, nomeadamente, descrever
e comparar partes do todo e de reconhecer a equivalência entre
fracções, decimais e percentagens, como forma de compreender
os números e as suas formas de representação
e relações entre eles.
Seja desenvolvida e integrada, desde cedo, ao nível das competências
essenciais uma postura crítica face à tecnologia,
nomeadamente, através do desenvolvimento de estratégias
de estimação.
3.2 Geometria
As competências essenciais indicadas no domínio
da Geometria nos diversos ciclos encontram-se na generalidade em
concordância com os actuais programas. No entanto, nota-se
uma referência mais explícita à visualização
e raciocínio espacial a desenvolver em todos os ciclos e
não é feita nenhuma referência às razões
trigonométricas no 3º ciclo.
Relativamente à análise comparativa
com outros países, nota-se em alguns casos desde muito cedo
a introdução daquilo que aparece designado como Geometria
das Coordenadas e teoria dos grafos, normalmente incluídos
em sistemas de representação.
Embora a nossa tradição aponte para
trabalhar as coordenadas associadas às funções,
a forma como aparecem nos documentos analisados está muito
ligada, nos primeiros anos, à posição relativa,
e posteriormente à representação num referencial
e à distância entre pontos.
Concordamos em geral com as recomendações
contidas no documento em relação à Geometria,
não nos parecendo que devam ser objecto de alteração.
3.3 Estatística e Probabilidades
As competências essenciais indicadas no domínio
da Estatística e das Probabilidades revelam uma preocupação
positiva em ir um pouco além do que é indicado nos
actuais programas que, são, nesta área, manifestamente
insuficientes. Mesmo assim, as competências indicadas neste
documento são demasiado limitadas tendo em conta os imperativos
de uma formação básica para o exercício
da cidadania.
Em primeiro lugar, essas competências não
relacionam claramente a Estatística com o processo de realização
de uma investigação recorrendo a dados de natureza
quantitativa, que começa com a colocação de
questões, passa pela elaboração de um plano
de recolha e análise de dados, recorrendo a ferramentas computacionais
e conceptuais diversas, e termina com a realização
de inferências. O documento refere-se a alguns destes aspectos
mas não os contempla de modo coerente e devidamente articulado.
Aliás, não deixa de ser significativo que esta área
se chame "Estatística e probabilidades" em vez
de se chamar, como seria mais aconselhável, "Estatística
e análise de dados".
Em segundo lugar, as competências indicadas
deixam a desejar em diversos pontos específicos:
são pouco explícitas no que se refere
ao estudo das características gerais de conjuntos de dados,
que requer mais do ideias "informais" sobre dispersão
dos dados envolvendo a utilização de conceitos como
amplitude, desvio médio, variância, desvio padrão,
simetria e elemento estranho (outlier);
não referem a importante noção de amostra e
o processo de amostragem, essencial para a realização
e análise crítica de inferências;
não indicam a necessidade dos alunos serem capazes de usar
uma variedade de formas de representação e análise
de dados, recorrendo às novas tecnologias.
Em terceiro lugar, e conforme referimos em 2.2, as competências
indicadas não contemplam objectivos específicos para
o 1º ciclo, fazendo passar involuntariamente a mensagem que,
neste ciclo, não se trata de um assunto muito importante.
Na verdade, o 1º ciclo seria o momento adequado para a introdução
das noções de média e moda, bem como a de frequência
absoluta, para além de iniciar a aprendizagem de formas de
representação de dados como pictogramas e gráficos
de barras.
3.4 Álgebra e funções
As competências a serem desenvolvidas ao longo
de todos os ciclos apresentam-se coincidentes com temáticas
semelhantes presentes em currículos estrangeiros. A ênfase
no estudo de regularidades e a sua representação através
de múltiplos processos, a manipulação de equações
e o uso das noções de correspondência e transformação
são aspectos muito importantes deste tema e estão
explicitados na proposta.
1) Uma questão genérica. Conforme referimos
em 2.2, o facto de apenas ser apresentada uma concretização
de competências para o 3º ciclo, faz passar a mensagem
de que nos outros ciclos estes aspectos têm difícil
aplicação. Nesse sentido, apresentamos duas sugestões
para a inclusão de alguns aspectos referentes ao 1º
e ao 2º ciclos.
1a) Funções. Os dois currículos
analisados propõem desde muito cedo o estudo de padrões
e relações. Embora este aspecto também esteja
referido na secção sobre Números (melhorar
o conceito de número) penso que deve existir aqui uma nova
referência, enfatizando a importância propedêutica
de uma abordagem pré-funcional deste estudo de padrões
e relações.
1b) Álgebra. "Equações"
muito simples são já resolvidas muito cedo, como extensão
das propriedades das operações aritméticas.
As fórmulas (que podem ser encaradas como funções)
são também usadas desde cedo. Por exemplo, quer os
americanos, quer os ingleses, encaram estes dois usos como uma extensão
(uma antecipação no tempo) do uso da álgebra
e das funções a níveis etários mais
baixos.
2) Alguns currículos estrangeiros realçam
a ideia de que a álgebra assenta numa codificação
complexa de propriedades aritméticas sugerindo implicitamente
que o ensino da primeira deve estabelecer ligações
fortes com as segundas. Esta recomendação está
de acordo com os resultados da investigação, que aponta
precisamente para a necessidade de uma ligação números-equações,
como forma de evitar uma aprendizagem meramente instrumental da
álgebra. Esta perspectiva, no entanto, não é
referida na presente proposta.
22/2/2000
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